Despertei com medo de ser finita. Me decompor em cada passo dado em busca da saída mais próxima. Estava com medo de me acabar pelas mãos de quem não me toca, pelos desejos de quem jamais vai me tocar. Onde estava a maldita porta que me traria dois minutos de fôlego para poder retornar e juntar os pedaços em que me desfaço?

Eram farelos, soprados, eram meus farelos, era eu que via sumir. E não dói, ou então doía tanto que me adormece, me amortece, me traz a praga de desejar morrer sem me desfazer. Tudo porque estava com medo de ser finita. Sem abraços largos, sem decadências marcantes, sem sinais que indicam a intimidade profunda e, sem deleite por nada, acomodei a cabeça entre as duas mãos e chorei.

Entreguei-me como a cortina se entrega ao vento da janela aberta, e vai. Fui deixando pontas soltas, aqui, ali. Era copioso, barulhento, sem querer passar despercebida, voltem a atenção para mim, eu estou aqui, me derramando em prantos, implorando ao mundo que me faça ficar, gritando ao seco ardido o socorro há muito ignorado. Essa sua mão estendida é gasosa e não me segura, compõe o ar e não pesa, uma imitação barata do apoio, falso como a esmola que dei.

Da visão que treme seguro as bordas, balança, balança e não derruba até trazer a náusea. E ela está aqui, impassível e cheia de si. Sem piedade alguma me atormenta, apurando os ouvidos desleixados pelos barulhos escutados todos os dias, todos em uníssono, em coro desafinado e assustador, declamam a poesia e tudo automaticamente fica bem, é mágico, não é mesmo? Não é, mesmo.

Bonito por fora para quem está por fora, admirado por não sei quem e odiado por quem lhe conhece bem. É a intimidade que me afunda, um buraco que quero mergulhar com medo de me afogar, olha bem, ouça bem, eu realmente não sei de nada, mas quero ir sem ajuda, uma loucura descabida que ninguém desconfia. Confiam no corpo retorcido pelo ritmo alegre, pela curva labial perfeita velando o retorno de temores que deitam junto à cabeça no travesseiro. Sem falta. Da falta que me fazem eu já acostumei, da falta que faço ainda não descobri.

Árduo trabalho de olhar pelos olhos alheios, espera, não é interesse peculiar pela vida alheia que não me convém, mesmo sabendo que todas as vidas nos convêm, ou então não precisaríamos do grupo, nem afirmar a racionalidade da nossa raça. Que raça. Aquela que idolatra, aquela mesma que cospe na cara, aquela que diz sermos iguais, aquela mesma que diz ser diferente de quem não agrada. E quem não agrada? Ninguém agrada. Tente comigo agora, somente agora, tirar esses olhos do umbigo que centraliza sua barriga cheia, oh difícil, eu sei, e veja quantas vidas nos convém. Um fardo.

O fardo pesado que apodrece se não cuidado, deixando um rastro avisando que aquele saco não está totalmente bem, tá vazando, vejam. Colocar o tapete por cima e tentar esconder o rastro, que asco, é por isso que me desfaço. É por isso que choro e vejo lágrimas escorrerem pelo chão antigo, que águas salgadas lavaram, que pés descalços pisaram e hoje são dominados por falsários nascidos ali bem na época dos despreocupados.

E eles ainda nascem, viu? Regados diariamente por palavras de ordem, por solavancos de ódio, por águas salobras e sóis quentes, tão quentes que racham o chão, racham cabeças que se deixam levar. Rolando ladeira abaixo destruindo os jardins de quem ainda se preocupa com flores. Não tem freio ou ainda não descobrimos maneiras indolores de parar. Resta pedir, antes de se lançarem, por favor, usem a cabeça para pensar.

Eu, que peço tanto, imploro demais, ainda tremo de medo de ser finita, de ter limites estabelecidos como as barreiras invisíveis de um país para outro que nos impedem de pisar em solo da Terra, do planeta de humanos, todos perfeitos para serem iguais e divinamente diferentes. Ainda me desfaço, como a areia seca da praia viajando no vento para onde jamais veremos, ouvindo o som das palmeiras dançando em ritmo marinho, com o som dos pés afundando, afundando, afundando até me desequilibrar, o som das conchas se chocando no saquinho, o som do meu corpo deitando, se acomodando cada vez que uma onda atinge as costas, me obrigando que feche bem os olhos, me fazendo pensar, suspirar em pleno alívio, que me desfazer por completa vai me levar para o infinito.

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4 comentários em “quero fazer pedidos além da conta

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