Remédios que não satisfazem mais o cérebro ou o cérebro que realmente nunca aceitou drogas por drogas para que meu corpo esmorecesse. Pálpebras rígidas como panturrilhas com cãibra noturna, o corpo dói. Ai que vontade de me derramar em preguiça, sonolência calma e tranquila como o corpo que logo ali repousa. Sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce em movimentos perfeitos e automáticos, sereno como o mover de folhas nos ventos da noite, é leve, profundo que traz paz, paz que meu cérebro não produz e não aceita por drogas.

Quão perturbada sinto a mente, que trabalha queimando neurônios, luta para produzir algo que nem ao menos sei do que se trata. Ah, madrugadas infalíveis, avancem ou retornem ao ponto em que sua existência era mera fantasia em minha mente sonhadora. Saudade de sonhos sonhados dormidos, cansada de sonhos vistos com pálpebras imóveis, congeladas pela ação indefesa do meu corpo que se recusa a repousar.

Éramos corpos unidos, que transpiravam no frio, queimavam o calor e faziam o silêncio correr para solidões habitáveis, aqui, não. Éramos plenos de força, ligamentos além do contato, o físico era primeiro e era último, entre ele estava a mente, que se unia de maneira uníssona e tratava de ressoar o desejo pelo vai e vem ininterrupto até que o sono fizesse toc toc batendo à porta das quatro paredes, fazendo corpos caírem juntos ao sono profundo imperceptível.

Segredos obstruídos pelo cansaço da rotina que arrasta e massacra sem dó. Viraram fumaça dos fogos vindos de agosto, queimam e ardem até sufocar para serem libertos de um eu que nem sei se existe mais. Quando mudei e percorri o caminho dos elos perdidos? Enveredando por bocas que mais olham do que beijam, por mãos que mais machucam que acalentam? Enfrentando nascimentos diários, como a pele de cobra que se rasga quando não tem mais para onde crescer. Aflorei tanto que não sei de onde veio minha semente.

Sentia o corpo elétrico, palavras ressoando pelos ouvidos, vindas não sei de onde, que ligavam os olhos, mas não deixavam alerta, era mórbido mergulhado em lama. Onde foram parar meus sonhos? Era tão melhor. As cortinas brancas tremulavam formando dois fantasmas que flutuavam ao meu redor quase atingindo o corpo que repousa na cama e chicoteando o meu que se mantinha imóvel, de olhos vidrados em pulmões cheios, pulmões vazios, cheios, vazios, cheios.

Não éramos um, na verdade nunca fomos, e vendo os movimentos descompassados buscava nas lembranças perdidas onde nos quebramos. Partidos meio a meio, mas sem equilíbrio, por sentir o cansaço pesar mais aqui, na corrida para alcançar quem me deixara para trás.

De gosto amargo minha boca era preenchida, seca e sedenta por algo que já fora. Noites infinitas engolidas pelas madrugadas estéreis, silenciosas, monótonas, paradas no tempo, mas que avançam para aqueles que não a percebem. Quão doloroso era sentir o tempo passar, vendo pedaços de ‘eus’ flutuarem para longe, meu corpo deixando espaço para peças que antes não se encaixavam, me tornando esse ser completo por remendos, de quem vai e de quem fica, incontrolavelmente, tornando minha luta infantil algo supérfluo, pequeno e inútil.

O desejo de correr por horas a fio, sentindo o peito congelar, os pés implorando por descanso até que a respiração se tornasse tão dolorosa quanto a sensação que sinto agora. Mudar não é fácil ou, pelo menos, nunca mais foi quando me atentei para isso. Queria ver o sol sem precisar respirar os segundos da noite, queria tomar café sem precisar sentir repulsa pelo seu cheiro na madrugada, queria beijar os lábios daquele que interpõe meus sonhos e vontades, queria carregar o sorriso leve para os dias pesados, queria poder acordá-lo e dizer o quando me atormenta não poder acompanhar seus devaneios suspirados e ritmados. Com o salgado das lágrimas meu corpo é regado. Tão nítido o véu do que somos feitos, está na nossa cara e vivemos carregando bagagens desnecessárias.

Pobre, inocente por não encarar a noite de frente, estupidamente feliz em sua ignorância desejada. O corpo ainda mole, jogado em lençóis contadores de histórias insanas, lágrimas tardias e sorrisos sem motivo. Largo o cigarro, fecho as janelas até que as cortinas-fantasma se aquietem, deito entre parede e corpo quente, que seguia seu trabalho importante de respirar e manter o corpo vivo e acolhedor. Sentia festa ao me aninhar, quase vendo o sangue transcorrer, abrindo olhos que beijam, boca que observa e mãos que espalmam o medo de tal forma a me deixarem confortável em meio ao tumulto que é tentar dormir ao lado do amor vivo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s