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a instigante revolução de ir além

Depois de semanas existindo em rotina, em que acordava para trabalhar e ao primeiro passo para fora da cama já sentia meu corpo implorando para que voltasse, decidi bater no rosto, despertar e agir para alguma coisa que me ruborescesse novamente as bochechas. A falta do calor emotivo estava se definhando de maneira melancólica, não queria mergulhar novamente em águas frias.

Olho o celular, olho as mensagens, olho as timelines das redes sociais, procuro por algo interessante e deixo de lado. Não há nada. O espelho foi cruel ao me mostrar a realidade apática que eu estava exalando, o peso de ver que eu precisava me resgatar foi como um soco no estômago.

O chuveiro resolveu ceder para um momento de paz, me proporcionou água quente e forte, senti como se estivesse lavando a alma e deixando que escorresse ralo abaixo os temores inseguros que me fazem parar, quando a única coisa que deveria fazer era seguir. Era possível sentir cada gota batendo nas costas, a cada inspiração profunda me tornava mais amena, as armas internas estavam agora em repouso, e eu, totalmente exposta para tudo o que poderia vir verdadeiramente.

Permiti que a pressa não fosse minha companheira hoje. Sempre apressada, sempre atrasada, sempre correndo, sempre querendo chegar a algum lugar que, no fim, não me leva a lugar algum. Pude apreciar os vidros do banheiro ficando vagarosamente embaçados, sentir o ar abafado entrar nas minhas narinas, lembrar o quão gostoso é o cheiro do meu sabonete e quão reconfortante é deixar o couro cabeludo se encharcar.

Passando a mão pelas roupas coloridas, monocromáticas, com texturas ou lisas decidi escolher uma que me fizesse sentir que a cada passo estava sendo acolhida pelo conforto. Ao encarar meu rosto refletido vi que ele pedia por vida, coloquei um batom vermelho, nada mais, e segui para fora até encontrar o lugar que eu deveria estar. Sem destino, pedi ao motorista, que solicitei por esses aplicativos, que me levasse ao lugar que ele adorava para beber com os amigos. Ele não bebia. Me levou até uma cafeteria, dessas modernas que possuem o poder de nos fazer perder a noção do tempo, e antes que eu descesse ele disse alguns nomes de bares que não atentei muito.

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Era atemporal, nada na arquitetura me lembrava algum período histórico, misturavam peças antigas, modernas e esquisitas. Era pouco mais de oito da noite e eu estava prestes a morder um bolinho de blueberry com café. O entra e sai que fazia o sino na porta vibrar estava frenético, parece que as pessoas preferem ficar despertas numa sexta à noite que bêbadas. Não era meu clube. Saí para caminhar em busca de algo.

A rua era cheia de bares, para todos os lados, estilos, bolsos e interesses. Entrei em um que estava pouco cheio, uma mesa pequena, luzes amareladas que faziam os tijolos vermelhos parecem mais vívidos e garçons com camisas comuns que certamente causavam confusão entre clientes. O cheiro de cigarro no ambiente denunciava que não havia uma área de fumantes, era tudo junto, perto, misturado, sufocante de um jeito divertido. Sem pressa, deitei a cabeça para a direita e fiquei vendo como a cerveja inundava o copo e deixava aquela espuma branca em cima que, ao encostar na minha boca, misturava-se com aquelas bolinhas dominando minha língua, garganta, corpo. Os olhos fecharam involuntariamente em agradecimento.

Nesse ritual de apreciação passo a prestar atenção nas pessoas. Era divertido entender como se comportam, como conversam, gesticulam, flertam, ficam tímidas ou se desinibem pelo álcool ou boas companhias. Haviam mulheres bonitas, homens também, pessoas divertidas que chamam a atenção para si, outras mais contidas e voltadas para seus cigarros e outras ainda que balançavam a cabeça no ritmo da música que tocava.

Durante a noite, posso contar algo perto de quatro pessoas que tentaram conversar comigo com alguma intenção diferente ou desconhecida. Não sei porque, mas deve ser um pouco difícil que entendam quando queremos curtir nossa própria companhia, mesmo que não haja tanto mistério nisso. Somos seres sociáveis, sim, mas antes de explorar o externo é preciso que busquemos o interno, mesmo que pareça quase impossível hoje em dia. Quase.

É como observar tudo, para entender quase nada, por olhos de quem consegue compreender tampouco. Queremos ser independentes, custe o que for, queremos mostrar o que há de melhor, queremos que todas as noites sejam espetaculares, sem mais delongas. E não somente isso, ao som das gargalhadas audíveis, é possível entender que todos querem ser compreendidos, sem seus gritos internos, saltos no escuro e pedidos de clemência.

Peço mais uma bebida, acendo o cigarro e sinto uma vontade quase explosiva de gargalhar, mesmo que corra o risco de ser julgada como louca. Esta noite estou me divertindo comigo mesma e ninguém mais poderia me proporcionar isso.

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